Inflação não é apenas sensação: é poder de compra
- Alex Lopes

- há 4 dias
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Na data que comemoramos o dia do economista, 13 de agosto, gostaria de trazer uma reflexão importante.
Uma recente declaração da economista Miriam Leitão me chamou a atenção. Ao comentar a percepção de carestia, afirmou que “os números nem sempre coincidem com a sensação” e que podemos ter a sensação de preços elevados mesmo quando os índices de inflação estão apresentando queda.
Há uma verdade econômica nessa afirmação. Mas, como economista, acredito que seja necessário avançar um pouco mais nessa análise.
O primeiro ponto é compreender que inflação e nível de preços são conceitos diferentes. Quando a inflação diminui de 10% para 5%, não significa que os preços tenham caído. Significa que eles passaram a subir em uma velocidade menor. O nível de preços continua mais elevado.
Essa distinção é fundamental para compreender por que uma família pode continuar percebendo forte pressão sobre seu orçamento mesmo diante de uma desaceleração do IPCA.
O IPCA é um indicador extremamente importante para a economia brasileira, mas é, por definição, uma medida agregada. Trata-se de uma média ponderada da variação dos preços de uma cesta representativa de bens e serviços. Não existe, portanto, uma única inflação experimentada de maneira uniforme por todas as famílias.
E aqui está uma questão que considero particularmente relevante: a composição da cesta de consumo importa tanto quanto o índice agregado.
Famílias de menor renda destinam parcela significativamente maior de seus rendimentos a itens essenciais, como alimentação, habitação, transporte e outros bens e serviços básicos. Quando esses componentes apresentam pressão de preços, o impacto sobre o orçamento dessas famílias pode ser proporcionalmente muito maior.
Por isso, não considero adequado reduzir a percepção de carestia a uma mera “sensação” que estaria em desacordo com os números.
A percepção pode, na realidade, estar refletindo uma experiência econômica concreta: a inflação da cesta de consumo daquela família pode ser diferente da inflação média capturada pelo índice agregado.
Existe ainda outro componente importante: a inflação acumulada.
Uma família não vive apenas a inflação de um determinado mês ou dos últimos 12 meses. Ela carrega no orçamento os aumentos de preços acumulados ao longo dos anos. Quando ocorre uma desinflação, temos uma desaceleração da taxa de crescimento dos preços — não necessariamente uma reversão do aumento anteriormente acumulado.
É por isso que a queda da inflação não deve ser confundida com recuperação automática do poder de compra.
E esse debate nos leva a uma questão macroeconômica que considero ainda mais importante.
Inflação baixa e estável deveria ser um objetivo permanente de política econômica.
Não apenas porque números elevados de inflação são ruins para os indicadores macroeconômicos, mas porque a inflação possui efeitos distributivos relevantes. Ela penaliza especialmente aqueles que possuem menor capacidade de proteção patrimonial, menor poder de barganha salarial e menor possibilidade de substituir produtos ou postergar consumo.
Inflação elevada também dificulta o planejamento das famílias, aumenta a incerteza das empresas, pressiona as expectativas, influencia a curva de juros e pode comprometer decisões de investimento.
Por isso, não devemos tratar a inflação como um problema meramente estatístico.
Ela é, sobretudo, um problema de poder de compra, previsibilidade e alocação de recursos.
E aqui entra outro ponto que considero indispensável ao debate econômico brasileiro: a política fiscal.
Não se trata de afirmar, de maneira simplista, que todo aumento de gasto público gera inflação. A economia é mais complexa do que isso.
Entretanto, uma política fiscal persistentemente expansionista pode adicionar pressão à demanda agregada e dificultar o processo de desinflação, especialmente quando a economia opera próxima de sua capacidade, as expectativas estão desancoradas e não existe uma trajetória fiscal suficientemente crível.
Nesse ambiente, a política monetária pode acabar tendo que permanecer mais restritiva por mais tempo.
O resultado é conhecido: juros elevados, maior custo de capital, menor espaço para investimento produtivo e maior dificuldade para a própria política econômica alcançar um equilíbrio sustentável.
E existe ainda um efeito adicional: a deterioração da percepção sobre a sustentabilidade fiscal pode elevar o prêmio de risco, afetar as expectativas e aumentar a própria dificuldade de condução da política monetária.
É por isso que política monetária e política fiscal não podem ser analisadas isoladamente.
A autoridade monetária pode elevar juros para conter a demanda e reancorar expectativas. Mas, se a política fiscal caminhar persistentemente na direção oposta, o processo de desinflação pode se tornar mais custoso.
No atual cenário brasileiro, portanto, considero fundamental manter uma postura crítica e técnica sobre a trajetória dos gastos públicos, a sustentabilidade da dívida, a credibilidade do arcabouço fiscal e a coordenação entre as políticas monetária e fiscal.
E faço uma ressalva importante: estamos em um ambiente político no qual qualquer discussão sobre gasto público, inflação e juros pode rapidamente ser interpretada como posicionamento partidário.
Não deveria ser assim.
Economia não deveria ser torcida organizada.
O economista tem o dever de olhar para os dados, reconhecer suas limitações, compreender os mecanismos de transmissão e apresentar suas conclusões com independência intelectual.
É perfeitamente legítimo discordar de uma análise econômica sem transformar essa divergência em uma disputa política.
Da mesma forma, é legítimo reconhecer que um indicador pode estar mostrando desaceleração da inflação e, simultaneamente, reconhecer que milhões de famílias continuam enfrentando um nível de preços elevado e uma perda acumulada de poder de compra.
Essas duas coisas não são contraditórias.
Na verdade, são complementares.
O papel do economista não é desqualificar a percepção da população em nome dos indicadores, tampouco substituir os indicadores pela percepção da população. É justamente compreender a relação entre ambos.
Porque inflação não é apenas um número divulgado no início de cada mês.
Inflação é poder de compra.
É orçamento familiar.
É taxa de juros.
É crédito.
É investimento.
É expectativa.
É distribuição de renda.
E, principalmente, é uma variável econômica que precisa ser tratada com seriedade, independentemente do calendário eleitoral ou da conveniência política do momento.
Como economista, acredito que esse seja também um compromisso ético da nossa profissão: zelar pela qualidade do debate econômico, separar dados de narrativas e lembrar que, por trás de cada índice, existem pessoas tomando decisões reais com recursos limitados.
A inflação pode estar desacelerando.
Mas isso não significa que a batalha contra a inflação esteja vencida.
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