Um Novo Ano - Entre Reformas, Incertezas Globais e o Teste de Resiliência dos Empresários Brasileiros
- Alex Lopes

- 12 de jan.
- 7 min de leitura
O ano de 2026 será um ano desafiador para os empresários brasileiros.
A história econômica recente do país mostra que períodos de transição institucional, combinados com incertezas políticas e choques externos, costumam elevar o custo do capital, reduzir a previsibilidade e exigir das empresas um grau maior de planejamento e resiliência.
Basta lembrar ciclos como 2014–2016 ou mesmo a saída gradual da pandemia, quando mudanças regulatórias, volatilidade política e um ambiente internacional adverso se traduziram em retração do investimento e aumento da cautela empresarial.
Em 2026, o contexto volta a reunir esses ingredientes — agora sob novas roupagens.
Os desafios se distribuem entre o cenário doméstico e o internacional, criando um ambiente complexo, que exige dos empresários brasileiros leitura estratégica, disciplina financeira e capacidade de adaptação.
Desafios no cenário doméstico
O primeiro grande vetor de atenção em 2026 é a implementação da reforma tributária.
As empresas terão até este ano para ajustar sistemas, processos e modelos de negócio às mudanças estruturais aprovadas nos últimos anos.
A reforma substituirá um emaranhado de tributos — como PIS, Cofins, ICMS e ISS — por um modelo inspirado no IVA, baseado na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e no Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de competência compartilhada entre estados e municípios.
O novo desenho promete simplificação, maior transparência e neutralidade econômica, mas impõe um período de transição operacionalmente complexo. Um dos pilares do novo sistema é o direito a créditos amplos, permitindo que as empresas se apropriem de créditos ao longo da cadeia produtiva, reduzindo a cumulatividade que historicamente distorceu preços e decisões de investimento no Brasil.
Ao mesmo tempo, surge o Imposto Seletivo, voltado a bens e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, com impacto direto em setores específicos.
Embora a fase de testes comece em 2026, a transição completa só se encerra em 2032, o que significa anos de convivência entre sistemas antigos e novos. Dados recentes de pesquisas setoriais indicam que uma parcela relevante das empresas brasileiras ainda não iniciaram estudos aprofundados ou adaptações práticas, revelando um risco claro de custos adicionais, retrabalho e perda de competitividade para quem deixar a adequação para a última hora.
Outro ponto crítico no ambiente doméstico é a Norma Regulamentadora nº 1 (NR‑1), que estabelece as diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho. As atualizações recentes ampliaram o escopo da norma ao incorporar de forma explícita o gerenciamento de riscos psicossociais, incluindo saúde mental, estresse ocupacional e fatores organizacionais.
Na prática, isso exige que as empresas integrem esses riscos ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), com diagnóstico, planos de ação e monitoramento contínuo.
Historicamente, o empresariado brasileiro tende a reagir de forma tardia a mudanças regulatórias nessa área, tratando-as como custo e não como investimento em produtividade e sustentabilidade organizacional. Pesquisas e auditorias trabalhistas mostram que muitas empresas ainda não estão plenamente preparadas para cumprir essas exigências, o que amplia o risco de autuações, passivos trabalhistas e perda de reputação.
Há ainda um fator estrutural frequentemente subestimado: o excesso de feriados nacionais, estaduais, municipais e as tradicionais “emendas”.
O Brasil figura entre os países com maior número de dias não úteis ao longo do ano, o que impacta diretamente a produção, a prestação de serviços e o crescimento do PIB.
Estudos comparativos mostram que economias mais produtivas tendem a concentrar feriados ou compensar dias parados com maior flexibilidade laboral, algo que ainda avança lentamente no Brasil.
Para muitas empresas, especialmente na indústria e nos serviços intensivos em mão de obra, a fragmentação do calendário reduz eficiência, eleva custos e dificulta o planejamento, criando uma discrepância competitiva em relação a países com calendários mais racionais.
Não se pode ignorar, ainda, a histórica paixão do brasileiro pelo futebol. Em 2026, ano de Copa do Mundo, esse fator cultural tende a gerar impactos econômicos relevantes. Tradicionalmente, o evento influencia o comportamento do consumo, altera rotinas produtivas, afeta a produtividade em determinados setores e provoca deslocamentos temporários de atenção no ambiente corporativo, com reflexos tanto positivos — como estímulo a segmentos específicos do comércio e dos serviços — quanto negativos, especialmente em termos de eficiência operacional.
O calendário eleitoral de 2026 também adiciona incerteza. Historicamente, anos de eleições relevantes provocam cautela nos investimentos das grandes empresas, que preferem aguardar maior clareza sobre os rumos da política e economia, regulatória e fiscal dos potenciais vencedores.
Além disso, o segundo semestre costuma registrar um esvaziamento do Congresso Nacional, com parlamentares focados em agendas regionais e eleitorais. Esse movimento atrasa votações de temas estruturais, prolonga indefinições e gera morosidade decisória, com reflexos diretos sobre a economia real.
No campo institucional e financeiro, casos envolvendo grandes instituições e investigações complexas, como do Banco Master — cujos desdobramentos ainda estão em curso — tendem a gerar ruído adicional ainda.
Tensões entre órgãos de controle, disputas políticas e especulações sobre possíveis implicações para figuras públicas elevam a percepção de risco, afetam a confiança dos agentes econômicos e reforçam a sensibilidade do mercado a temas de governança e estabilidade institucional.
Mesmo sem conclusões definitivas, o simples prolongamento dessas incertezas já é suficiente para aumentar a aversão ao risco.
Desafios no cenário internacional
No ambiente externo, o pano de fundo é igualmente desafiador e adiciona camadas relevantes de risco macroeconômico ao cenário brasileiro. A geopolítica global permanece tensionada, com conflitos e disputas estratégicas sem solução clara no horizonte de curto e médio prazos, o que amplia a volatilidade dos mercados, encarece seguros, fretes e financiamento ao comércio exterior, e afeta expectativas de crescimento.
O conflito entre Rússia e Ucrânia segue em curso, sem sinais consistentes de encerramento, mantendo pressões persistentes sobre energia, fertilizantes, grãos e cadeias globais de suprimento. Esses efeitos, ainda que parcialmente absorvidos ao longo do tempo, continuam a gerar ruídos inflacionários e a impor custos adicionais às economias importadoras.
No Oriente Médio, as tensões estruturais permanecem como um risco sistêmico relevante. Historicamente, qualquer escalada militar na região tende a pressionar os preços do petróleo e de seus derivados, afetando diretamente custos de transporte, produção e logística em escala global.
Para o Brasil, esse ponto é particularmente sensível. Apesar de avanços na produção doméstica, o país ainda é grande importador de derivados de petróleo, o que o torna vulnerável a choques de preços internacionais.
A elevação do petróleo no mercado global pode se traduzir rapidamente em pressões inflacionárias internas, afetando combustíveis, energia, alimentos e, em última instância, o poder de compra das famílias.
Esse movimento limita a margem de manobra da política monetária, dificultando cortes de juros e prolongando um ambiente de crédito caro — com impactos diretos sobre consumo, investimento e crescimento.
A recente operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, oficialmente justificada pelo combate ao narcotráfico, teve como pano de fundo interesses estratégicos mais amplos, em especial a retomada do controle e da influência norte-americana sobre o petróleo venezuelano.
Esse movimento reacende tensões geopolíticas na região e remete a episódios históricos da Guerra Fria, período em que os Estados Unidos exerceram papel ativo na promoção e na derrubada de governos latino-americanos, com o objetivo de preservar seus interesses econômicos, políticos e estratégicos no continente. Além do componente político, tais ações adicionam incerteza ao mercado energético e ao equilíbrio regional.
Ao mesmo tempo, a relação entre Estados Unidos, China e Rússia — três grandes articuladores do poder econômico, militar e estratégico global — passa por um processo de reacomodação que redesenha a ordem internacional.
A China intensifica sua pressão política e militar sobre Taiwan, enquanto os Estados Unidos reforçam sua presença estratégica em diversas regiões, ampliando alianças e reposicionando ativos militares.
Esse tabuleiro geopolítico eleva a percepção de risco sistêmico e cria incertezas que podem se refletir no Brasil por meio do comércio exterior, dos fluxos de investimento estrangeiro e até do debate político interno, já que temas internacionais tendem a ganhar espaço no discurso eleitoral, inclusive nas disputas presidenciais.
Outro elemento central são as discussões tarifárias. O uso de tarifas como instrumento de pressão geopolítica e econômica continua presente, especialmente por parte dos Estados Unidos, tanto em relação a adversários históricos quanto a aliados estratégicos.
A imprevisibilidade quanto aos próximos movimentos da política comercial americana — em especial sob uma postura mais assertiva do presidente Donald Trump — adiciona volatilidade ao comércio mundial, afeta cadeias globais de valor e exige das empresas brasileiras atenção redobrada aos mercados de destino de suas exportações, aos acordos comerciais e à diversificação de riscos.
Conclusão
Em síntese, 2026 não será um ano simples para a economia brasileira e, sobretudo, para os empresários.
O ambiente macroeconômico combina taxas de juros elevadas por um período prolongado — conforme sinalizações recorrentes do Banco Central, que indicam a manutenção da taxa Selic em patamar restritivo — com instabilidades políticas e institucionais que ampliam a incerteza e encarecem o custo do capital, dificultando decisões de investimento de médio e longo prazo.
Ao mesmo tempo, movimentos estruturais como a reforma tributária e a ampliação do escopo da Norma Regulamentadora nº 1 revelam uma dicotomia clara. De um lado, esses avanços criam um campo fértil para consultorias especializadas, escritórios técnicos e serviços de assessoria capazes de traduzir normas complexas em soluções práticas, eficientes e aderentes ao compliance. De outro, impõem aos empresários desafios relevantes de adaptação operacional, custos, tecnológica e cultural, exigindo investimentos, revisão de processos e uma mudança profunda na forma como risco, governança e planejamento são tratados dentro das organizações.
No plano político, os desafios são igualmente expressivos. A polarização no Brasil atinge níveis inéditos, mas o debate sobre o futuro econômico do país parece cada vez mais esvaziado de conteúdo estruturante.
Observa-se intensa disputa por poder, narrativas e visibilidade, enquanto o interesse político em votar e aprovar leis e reformas capazes de gerar ganhos reais de produtividade, eficiência e crescimento sustentável permanece limitado. Esse desalinhamento entre urgência econômica e ação política contribui para a sensação de paralisia institucional que afeta diretamente o ambiente de negócios.
Diante desse cenário, aos empresários brasileiros resta adotar cautela, planejamento estratégico e, sobretudo, resiliência. Em um ambiente marcado por complexidade regulatória, incerteza política e restrições financeiras, sobreviver — e crescer — deixa de ser apenas uma questão de oportunidade e passa a ser um exercício contínuo de governança sólida, leitura atenta do cenário e capacidade permanente de adaptação.
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