top of page

Série: Auditoria do Futuro — do Calendário ao Tempo Real | Auditoria Baseada em Comportamento

Auditoria Baseada em Comportamento: quando o risco não está no processo, mas em quem decide

 

 

A auditoria interna, historicamente, foi construída sobre uma premissa lógica: se o processo é bem desenhado e os controles são adequados, o risco está mitigado.

 

Na prática, essa premissa é apenas parcialmente verdadeira.

 

Processos não tomam decisões sozinhos. Pessoas tomam.

 

E é justamente nesse ponto que reside um dos maiores riscos não capturados pelos modelos tradicionais: o comportamento humano como gerador e amplificador de risco.

 

Estudos da “Association of Certified Fraud Examiners” indicam, de forma consistente, que mais de 80% dos casos de fraude envolvem “override” de controles existentes, e não ausência de controles. Ou seja, o problema raramente está na estrutura — está na forma como ela é utilizada (ou contornada).

 

Ainda assim, a auditoria continua, em muitos casos, concentrada na validação do desenho e da execução formal dos processos.

 

Aí fica a pergunta, quantos controles são eficazes no papel… mas sistematicamente ignorados na prática?

 

 

O limite do modelo tradicional

 

O modelo clássico de auditoria interna foi concebido para responder a riscos estruturais — falhas de desenho, ausência de controles, inconsistências processuais etc.

 

Mas ele apresenta limitações quando o risco emerge de padrões comportamentais, como:

 

  • Aprovação recorrente de exceções sem justificativa robusta

  • Concentração de decisões críticas em poucos indivíduos

  • Uso frequente de overrides de controle

  • Tendência a contornar regras sob pressão por resultado

  • Normalização de desvios ao longo do tempo


Esses elementos dificilmente são capturados por testes tradicionais, porque não representam, isoladamente, uma falha de controle — mas sim um padrão ao longo do tempo.

 

O COSO já reconhece, no componente de “Control Environment”, a importância da integridade, dos valores éticos e do comportamento organizacional. No entanto, sua mensuração prática ainda é um desafio para muitas organizações.

 

E não estamos propriamente tratando de fraudes intencionais, muitas vezes os controles se tornam mais flexíveis para facilitar o processo, reduzir despesas, dar mais agilidade

 

Não se trata, necessariamente, de fraudes intencionais. Em muitos casos, os controles são gradualmente flexibilizados como resposta a pressões operacionais — seja para ganhar agilidade, reduzir custos ou simplificar processos. Esse movimento, embora muitas vezes bem-intencionado, pode, ao longo do tempo, comprometer a efetividade do ambiente de controle.

 

O problema nem sempre começa com fraude. Muitas vezes começa com ‘só dessa vez’ — para ganhar tempo, reduzir custo ou destravar o processo.


 

A virada: Auditoria Baseada em Comportamento

 

A Auditoria Baseada em Comportamento propõe uma mudança de foco: não apenas auditar o processo, mas analisar o comportamento que opera dentro dele.

 

Essa abordagem incorpora conceitos da economia comportamental — como viés de confirmação, pressão social, excesso de confiança e racionalização — para entender por que os controles são, em certos contextos, ignorados.

 

Na prática, isso significa monitorar padrões como:

 

  • Quem aprova exceções — e com que frequência

  • Quem tende a concentrar decisões críticas

  • Onde há recorrência de desvios “aceitáveis”

  • Como determinadas áreas reagem a pressões por metas

  • Quais comportamentos antecedem falhas relevantes

 

A auditoria interna passa, assim, a identificar não apenas o que deu errado, mas o padrão que aumenta a probabilidade de erro ou fraude.

 

Isso está alinhado com a evolução proposta pelo “The Institute of Internal Auditors”, que incentiva uma atuação mais analítica, consultiva e orientada a riscos emergentes.

 

A evolução da auditoria impõe um novo desafio: além de validar evidências objetivas, o auditor precisa interpretar padrões comportamentais, frequentemente não estruturados, mas decisivos na materialização do risco.

 

Nem todo risco está no número. E nem todo auditor foi treinado para ler o que não está no relatório.


 

Como implementar na prática

 

Apesar de parecer conceitualmente sofisticado, o modelo é viável com dados já disponíveis na maioria das organizações.

 

Um fluxo pragmático pode incluir:

 

1. Identificação de pontos críticos de decisão -  Processos com maior grau de julgamento humano (aprovações, exceções, alçadas).

 

2. Mapeamento de indicadores comportamentais - Exemplos:

 

  • % de exceções aprovadas por usuário

  • Frequência de override de controles

  • Concentração de decisões por indivíduo

  • Tempo de aprovação fora do padrão

 

3. Análise de padrões e outliers - Comparação entre usuários, áreas e períodos.

 

4. Priorização por risco - Foco em comportamentos recorrentes, não em eventos isolados.

 

5. Atuação direcionada - Micro auditorias, entrevistas, revisão de contexto e reforço de controles.

 

É importante destacar que a Auditoria Baseada em Comportamento não tem como objetivo avaliar indivíduos de forma isolada.

 

A máxima de que a auditoria interna avalia processos — e não pessoas — permanece válida e necessária, especialmente para garantir objetividade, imparcialidade e aderência às boas práticas estabelecidas pelo “The Institute of Internal Auditors.”

 

O que se propõe, neste contexto, é uma ampliação dessa perspectiva.

 

Processos são, em sua essência, operados em algum momento por decisões humanas. Ignorar como essas decisões se manifestam ao longo do tempo significa limitar a compreensão do próprio risco.

 

Assim, a abordagem comportamental não busca identificar “quem errou”, mas sim compreender como determinados padrões de decisão interagem com os controles existentes.

 

O foco, portanto, está em:

 

  • Padrões agregados, e não indivíduos isolados

  • Tendências ao longo do tempo, e não eventos pontuais

  • Interação entre comportamento e controle, e não julgamento pessoal

 

Essa distinção é fundamental para evitar interpretações equivocadas e garantir que a auditoria continue atuando de forma técnica, ética e alinhada aos princípios do IPPF.

 

Antes de revisar mais processos, pode ser mais eficaz entender como as pessoas interagem com eles.

 

O novo papel da auditoria interna

 

Ao incorporar a dimensão comportamental, a auditoria interna amplia significativamente sua capacidade de geração de valor.

 

Deixa de atuar apenas como:

 

  • Avaliadora de conformidade

  • Revisora de processos

  • Identificadora de falhas pontuais

 

E passa a atuar como:

 

  • Analista de padrões de risco

  • Intérprete do comportamento organizacional

  • Agente de prevenção estruturada

  • Parceira estratégica na cultura de controle

 

Isso reforça, na prática, o papel da auditoria como função essencial de governança, conforme estabelecido pelo “The Institute of Internal Auditors.”.

 

No limite, a maior mudança é conceitual: fraudes e desvios raramente são eventos isolados — são padrões de comportamento tolerados ao longo do tempo.

 

Importante que a auditoria interna deixe de olhar exclusivamente para os controles e passe a avaliar por quem e porquê eles foram ignorados?


 

Conclusão

 

A Auditoria Baseada em Comportamento não substitui os modelos tradicionais — ela os complementa.

 

O foco não está no indivíduo, mas na análise de padrões comportamentais que, ao longo do tempo, podem comprometer o ambiente de controle e gerar riscos para a organização.

 

Enquanto a auditoria clássica assegura a estrutura, a abordagem comportamental fortalece sua efetividade.

 

E, em um ambiente onde decisões são tomadas sob pressão, metas e incentivos, ignorar o fator humano não é apenas uma lacuna metodológica — é um risco estratégico.

 

No fim do dia, controles não falham sozinhos.

 

Eles falham quando comportamentos os tornam irrelevantes.

 

Talvez o maior risco não esteja no controle que falha, mas no comportamento que o torna irrelevante.

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page